Quem audita as auditorias?
    Voltar aos Insights
    InsightVisão CFO5 min

    Quem audita as auditorias?

    Cassiano Tonon

    Cassiano Tonon

    27 de jan. de 2026

    Sim, sim — eu sei que, tecnicamente, são as próprias auditorias. Mas você entendeu o ponto. Não me refiro a auditar suas demonstrações financeiras. Refiro-me a algo mais básico e mais incômodo: garantir que elas não estejam apenas cumprindo superficialmente as normas de auditoria, mas exercendo de fato a função para a qual existem.

    O contexto: quando o "parecer limpo" não protege

    A notícia recente do Poder360 é direta: quatro grandes auditorias — PwC, KPMG, EY e Crowe — deram parecer positivo para balanços que depois se revelaram sustentados por ativos inexistentes.

    Em tese, essas firmas deveriam representar a última linha de defesa do mercado. Na prática, falharam.

    Esse tipo de episódio costuma ser tratado como exceção. Um "caso isolado". Não é. Erros dessa magnitude não surgem do nada. Eles atravessam camadas, passam por processos, são absorvidos por linguagem técnica e legitimados por assinaturas seniores. Quando aparecem, o dano já está feito.

    Ética e técnica: problemas diferentes, mas conectados

    Do ponto de vista ético, um erro desse tamanho não "passa despercebido". Auditoria existe para dizer não, para tensionar, para interromper narrativas frágeis. Quando ativos inexistentes sobrevivem a um processo de auditoria, não estamos falando de interpretação sofisticada. Estamos falando de abdicação de função. E abdicar de função é escolha.

    Do ponto de vista técnico, o problema também é real: um erro assim pode sim passar despercebido ao longo das várias alçadas. E é exatamente isso que torna o modelo perigoso. A fragmentação dilui a responsabilidade.

    O modelo operacional: sócio vende, trainee executa

    Auditoria é executada em camadas. Trainee, sênior, gerente, sócio. Cada nível vê um pedaço do risco. Cada um presume que outro viu o todo. No final, ninguém vê.

    "Sócio vende, trainee executa" não é jargão cínico. É descrição do modelo. O sócio vende reputação, prazo e conforto. A execução fica com times pressionados por orçamento, horas e checklist. O incentivo deixa de ser entender o negócio do cliente e passa a ser fechar o trabalho dentro do fee.

    Bids de auditoria e a corrida por preço

    Já estive à frente de diversos bids de auditoria. O discurso é técnico, mas a decisão é comercial. Vence quem cobra menos oferecendo o "mesmo escopo". O problema é que o escopo virou ficção. Ninguém quer pagar pelo tempo, pela senioridade e pelo atrito que uma auditoria de verdade exige.

    Em 2008, quando virei trainee, eu achava que faria um trabalho estratégico. Que entenderia riscos, decisões críticas, modelos de negócio. Na prática, passei a maior parte do tempo tickando controles operacionais, muitas vezes sem entender por que aquilo importava. Eu executava porque estava no programa.

    Quase 20 anos depois, o modelo segue o mesmo — só que mais pressionado por preço, com menos tempo, menos senioridade na execução e mais confiança em processos automáticos e papéis "que sempre foram assim".

    Eficiência não é desculpa para negligência

    Não me entenda mal: não sou contra eficiência. Entregar o escopo previsto com alguém mais júnior é princípio básico de qualquer negócio de serviços. Eu faço isso na Otto. Todo mundo que escala serviço faz.

    Até o cara do lava-car, em algum momento, deixa de lavar carro para ensinar como lavar e pagar alguém mais barato para executar. Isso é maturidade operacional.

    O problema começa quando se chama isso de eficiência sem garantir que o escopo está sendo cumprido.

    Eficiência é cumprir o objetivo com menos desperdício.

    Quando o objetivo não é cumprido, o nome muda.

    Aí não é eficiência. É negligência.

    A ilusão do balanço auditado

    Como diria um professor meu:

    Mesmo em balanço auditado, o único número que não muda é o CNPJ. O resto é narrativa bem revisada.

    A frase incomoda porque é verdadeira. Auditoria, em muitos casos, virou linguagem de conformidade. Um vocabulário sofisticado que gera conforto narrativo, não verificação da realidade econômica.

    A pergunta que fica

    Erros desse tamanho não são invisíveis. Eles são percebidos, classificados, relativizados e empurrados adiante. Não por má-fé individual, mas por um modelo que recompensa silêncio, velocidade e margem.

    Quem audita as auditorias?

    Gostou deste conteúdo? Compartilhe com sua rede.

    © 2026 Otto Finance. Todos os direitos reservados.