2026: o CFO do agro jogando no "level hard"
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    2026: o CFO do agro jogando no "level hard"

    Cassiano Tonon

    Cassiano Tonon

    5 de mar. de 2026

    O agronegócio brasileiro gosta de se ver como um gigante inabalável. Mas a realidade é mais dura: a eficiência da porteira para dentro não salva uma gestão financeira amadora da porteira para fora. Se você achou que as margens espremidas e o clima severo de 2024 e 2025 foram difíceis, aperte o cinto. Bem-vindo ao level hard.

    1. A ressaca de 24/25: o cemitério dos otimistas

    Para entender 2026, precisamos olhar para as cicatrizes recentes. O fim do superciclo das commodities encontrou custos de produção que se recusaram a cair na mesma proporção. A conta não fechou.

    O resultado? Uma explosão histórica de Recuperações Judiciais (RJs) no setor. O banco, que antes financiava "promessa de safra", agora está em modo defesa. O crédito ficou arisco, extremamente seletivo e muito mais caro. Quem tem gestão, sobrevive; quem operava na sorte, entra na fila da RJ.

    2. O nocaute geopolítico

    É nesse cenário de crédito restrito que a geopolítica entra chutando a porta. O Working Paper nº 2/2026 do Insper Agro Global traz números que são um choque de realidade sobre a nossa dependência do Oriente Médio:

    Exportamos US$ 12,4 bilhões para a região em 2025. O Irã é o destino de 22% do nosso milho. Mais de 15,6% dos fertilizantes nitrogenados que usamos vêm de lá.

    Aqui entra o conceito de Cisne Negro, de Nassim Taleb: aquele evento raro, imprevisível e de impacto catastrófico. O paralelo com o mundo das lutas, que vivo como atleta amador, é inevitável: o golpe que te nocauteia é aquele que você não vê chegando.

    Enquanto o produtor olha apenas para o clima no Mato Grosso, um míssil no Estreito de Ormuz dobra o preço do frete e faz o seu adubo sumir em 48 horas.

    3. O "trimestre perdido" e a matemática do absurdo

    Como se não bastasse, 2026 traz a combinação letal de eleições presidenciais e Copa do Mundo. No mercado, ouço repetidamente: "O resultado tem que ser feito no primeiro semestre, depois o mercado esfria."

    Agora, faça a matemática do absurdo brasileiro: somos um país onde o ano comercial, na prática, começa depois do Carnaval. Desse tempo de operação, o governo já confisca o equivalente a quase três meses de faturamento da empresa só em impostos. Se o mercado entra em compasso de espera e "termina" em junho por conta de eleição e Copa... o que exatamente sobra em 2026?

    Pode não ser ciência exata, mas o mercado é movido por sentimento. Se a crença coletiva é essa, a gente vai sentir com ou sem fundamentação macroeconômica. Quem deixar para captar recurso ou travar custo em agosto vai disputar migalhas em um sistema financeiro paralisado pela cautela. Em 2026, esperança não pode ser componente de estratégia financeira.

    4. O CFO em modo War Room

    Neste cenário de janela curtíssima, a gestão financeira precisa ser infraestrutura de sobrevivência. O CFO precisa assumir a postura de War Room — e isso se traduz em três frentes objetivas:

    Liquidez é oxigênio

    Caixa não é luxo, é arma de guerra. Garanta sua liquidez antes que o mercado congele. Em cenários de crise, quem tem caixa compra ativos; quem não tem, vende os seus.

    Hedge é seguro, não cassino

    Especialmente em 2026, pare de tentar adivinhar e acertar o trade perfeito. Trave a margem (se ainda lhe resta) e garanta a operação. Não existe glória em especular quando sua empresa está em risco. A função do hedge não é maximizar ganho — é eliminar o risco de ruína. A volatilidade não perdoa o amadorismo.

    Diversifique o funding

    Aquela linha de crédito de banco médio, aquele FIDC que parecia sinônimo de agiota pode ser sua salvação — mantenha por perto. É melhor ter um crédito caro e não precisar usar do que precisar e não ter de onde captar.

    5. Perpetuidade exige preparação

    Na Otto, gostamos de olhar as finanças sob a lente da perpetuidade. O ruído político e o caos geopolítico vão atropelar quem estiver jogando no "level fácil" da complacência.

    Em 2026, o CFO do agro não gerencia reporte; ele gerencia crise em tempo real. É sobre garantir que, quando a poeira baixar em 2027 (se baixar), a sua bandeira ainda esteja de pé. Mantenha a guarda alta. O golpe que você não vê já está vindo.

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